20 de Maio de 2022 -
 
10/05/2022 - 07h10
Aumento do preço do diesel agrada acionistas da Petrobras, mas revolta caminhoneiros
CNN ouviu caminhoneiros de todo o Brasil, que reclamam da escalada nos preços dos postos e se organizam para reuniões na tentativa de construir uma solução
Pedro Duranda CNN
CNN Brasil/Agoranews
Decisão de aumentar em 8,9% o preço do diesel a distribuidoras
atende à política de Paridade de Preços Internacionais,
defendida pelo presidente da companhia - REUTERS/Diego Vara

Dos ‘reflexos terríveis’, ao ‘sofrimento na pele’, do risco de ‘parar na pista’ ao ‘sucateamento da frota’, caminhoneiros reagiram à decisão da Petrobras de aumentar mais uma vez o preço do litro do óleo diesel vendido a distribuidoras.

A partir desta terça-feira (10), o litro vai pular de R$ 4,51 para R$ 4,91. Mas os aumentos registrados entre março e maio nos postos pelos próprios profissionais que dependem do diesel, já são muito maiores que isso.

Da boleia, Emídio compara as notas fiscais do mesmo posto que abasteceu o caminhão em março, abril e maio. Na primeira visita ao posto, o diesel do tipo S500 estava sendo vendido a R$ 5,25 por litro. Na visita de abril, R$ 6,15.

Nesta segunda-feira, dia do anúncio de um novo aumento da Petrobras, mas antes que ele pudesse começar a valer de fato, já pagava R$ 6,54 pelo litro do combustível.

Com a mão no volante, grava um vídeo com o veículo estacionado. “Ida e volta daqui até o Piauí, 65% do valor do frete foi óleo diesel, com esse dinheiro eu compraria 4 pneus, na ida e volta, só o que gastei de diesel”, diz à CNN.

Antônio Emídio de Morais, conhecido como ‘Zé da Bota’, é um dos diretores da EBS, ou “Em Busca de Soluções”, entidade de caminhoneiros autônomos. O caminhão dele tem um tanque de 800 litros. Para ir de São Paulo ao Piauí e voltar ele gastou o equivalente a dois tanques. Entre março e maio, ele registrou uma diferença de R$ 1,29 no litro do diesel que usa para encher o tanque.

Com grandes quantidades, dá para se ter uma ideia do impacto disso. Se antes ele enchia o tanque com R$ 4.200, nesta segunda, para abastecer o veículo por completo, precisaria de R$ 5.232. A diferença: R$1.032 em apenas dois meses.

Já o aumento do frete, segundo ele, foi “praticamente nada”. “Nós caminhoneiros estamos sofrendo na pele esse aumento do óleo diesel”, afirma. “Se você perguntar para os colegas, a conversa não muda”, acrescenta ele.

Na boleia, o caminhoneiro autônomo Antônio Emídio de Morais, conhecido
como ‘Zé da Bota’, compara preços do diesel / Arquivo Pessoal/Divulgação

A decisão de aumentar em 8,9% o preço do diesel a distribuidoras atende à política de Paridade de Preços Internacionais, defendida pelo presidente da companhia José Mauro Coelho. A defasagem dos preços internacionais, no entanto, segue em vigor. Antes da mudança, era 21% a diferença.

A Petrobras afirma que “segue outros fornecedores de combustíveis no Brasil que já promoveram ajustes nos seus preços de venda acompanhando os preços de mercado”. Membro do Conselho de Administração escolhido pelos acionistas minoritários, Marcelo Mesquita elogiou a decisão.

“A Petrobras age tecnicamente, e o aumento foi o correto neste momento”, afirmou. A opinião é exatamente a mesma de outros acionistas ouvidos pela CNN. Havia uma dúvida de se Coelho seguiria a paridade ou não, então isso foi visto como prova de fogo.

Para quem precisa do combustível para viver, a história é outra. Em nota, a Confederação Nacional dos Caminhoneiros e Transportadores Autônomos de Bens e Cargas (CONFTAC), defende a “necessidade de um debate entre todos os setores econômicos para se encontrar alternativas ao problema dos transportes”. Segundo eles, somente em 2022, o diesel já teve aumento de 47%, “somado à crescente de preços nos produtos de manutenção dos veículos que já ocorre há alguns anos”.

O presidente da entidade, André Costa, disse que uma reunião no dia 18 pretende debater o assunto com vários representantes dos setores e que é necessário “construir uma nova ideia que seja possível para resolver a crise com o alto custo que existe hoje em contraste com a baixa remuneração”.

“Cada dia que passa me faz acreditar que não podemos ter caminhão. Nós só queremos um preço do diesel justo para que possamos trabalhar, porque com cada aumento do diesel, o preço de tudo aumentam também. Aumenta o diesel, aumenta tudo e só o frete que não aumenta”, afirmou Nailton Alves, presidente da filial do Sindicato dos Transportadores Autônomos de Cargas em Palmeira dos Índios (AL).

Inflação sobre rodas

O Secretário de Formação Sindical da CNTTL, Carlos Alberto Litti, que é do Rio Grande do Sul, diz que é uma situação inédita e argumenta que, em alguns lugares, o preço do litro do diesel já ultrapassa os R$ 8. “Não chamo mais de inflação, vai ser hiper inflação mesmo, porque tu colocar quarenta centavos numa tacada em cima do que já tinha, com preço do diesel em alguns lugares quase oito reais o litro… Isso é uma situação como nunca vista, porque 90% daquilo que é produzido no país é transportado por caminhões”, disse ele.

A autônoma Solimar Melo, do Rio de Janeiro, também reclamou. “Achei ótimo o aumento se for para tirar os autônomos de circulação, desempregar pais de família e sucatear ainda mais a frota que continua rodando. Porque com o diesel nesse preço sequer conseguiremos abastecer, quanto mais fazer manutenção e trocar de carro”, disse à CNN.

Vanderlei de Oliveira, que é presidente do Sindicato dos Transportadores Autônomos de Cargas de Navegantes e Região (SC), conta que os grupos fechados de transportadores fizeram uma negociação com as cooperativas de caminhoneiros e toda vez que o combustível atingir 10% a mais na bomba, o repasse automaticamente é feito no frete.

“Então já existe esse gatilho, que é mais ou menos a tabela de frente que a ANTT divulga, a gente já repassa isso para as transportadoras”, diz ele. “O que estamos passando é muito pior do que aquela época de 2018”, completa.

Oliveira se refere à greve nacional dos caminhoneiros, que fechou estradas e causou desabastecimento. A manifestação que foi coordenada na região de Cuiabá por Daniel Rodrigo de Souza, o ‘Carcaça’.

Hoje, ele afasta essa possibilidade, mas admite que uma série de reuniões tem sido feitas para discutir os impactos do alto preço do combustível. “Só tem duas opções: ou a gente repassa esse aumento automaticamente para o frete e aumenta automaticamente nas prateleiras dos mercados, ou então a gente vai parar em cima da pista, porque já estava espremido, não estava sobrando nada. Agora com esse aumento não é nem questão de greve, os caminhões vão parar em cima da pista, sem óleo diesel”, afirma. “Dessa vez o povo brasileiro vai sentir esse aumento, não tem outra solução”, completa ele.

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