24 de Junho de 2017 -
 
17/06/2017 - 15h00
No olho do 'Furacão da Lava Jato' Temer e Aécio são citados como os números 'Um e Dois' da corrupção diz Joesley á Revista Época
Secretaria de Comunicação do Planalto diz em nota que empresário, delator da Operação Lava Jato, é 'bandido notório', que 'desfia mentiras' e que Temer o processará.
Redação
Por G1 e Jornal Hoje
Presidente Michel Temer e Senador (afastado) Aéio Neves no
"Olho do Furacão" das denúncias de Joesley Batista.

O empresário Joesley Batista, dono do grupo JBS, chamou o presidente da República, Michel Temer, de chefe "da maior e mais perigosa organização criminosa" do Brasil em entrevista publicada na edição deste fim de semana da revista "Época".

O Palácio do Planalto divulgou nota na qual diz que empresário é "bandido notório", "desfia mentiras" e informa que na próxima segunda-feira Temer ingressará com ações na Justiça contra ele.

Na entrevista, o dono do frigorífico JBS, delator da Operação Lava Jato, também reafirma as denúncias que fez ao Ministério Público e à Polícia Federal contra integrantes das cúpulas de PT, PMDB e PSDB.

A entrevista de Joesley Batista ocupa 12 páginas da edição impressa de "Época".

O empresário inicia explicando como e quando os políticos começaram a agir como "organizações criminosas". Segundo Joesley Batista, tudo começou há cerca de 10, 15 anos, quando surgiram grupos com divisão de tarefas: um chefe, um operador e um tesoureiro.

De acordo com o empresário, são organizações criminosas que existem para ganhar dinheiro cometendo crimes.

Na entrevista, Joesley afirma que esses esquemas organizados começaram no governo do PT e diz que "Lula e o PT" institucionalizaram a corrupção com a criação de núcleos, divisão de tarefas entre integrantes, em estados, ministérios, fundos de pensão e bancos, entre os quais o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).

O resultado, para o empresário, é que hoje o Estado brasileiro está dominado por organizações criminosas. Segundo Joesley, o modelo foi reproduzido por outras legendas.

Michel Temer

Em determinado ponto da entrevista, o empresário passa a detalhar sua relação com o presidente Michel Temer iniciada entre 2009 e 2010, quando o peemedebista ainda era vice-presidente.

Ele disse que, no segundo encontro, Temer deu o número de seu celular e que os dois passaram a trocar mensagens. Joesley afirmou ainda que frequentou o escritório e a casa do presidente em São Paulo e o Palácio do Jaburu, residência oficial do vice em Brasília. O empresário contou ainda que Temer já esteve em sua casa e que foi ao seu casamento.

Joesley narrou que a relação entre os dois era institucional, de um empresário que precisava resolver problemas e que via em Temer a condição de resolver problemas.

Acrescentou que achava que o presidente via nele um empresário que poderia financiar as campanhas – e fazer esquemas que renderiam propina.

Joesley Batista disse ainda que, desde que se conheceram, teve “total acesso” a Temer.

Na entrevista, Joesley afirmou que o presidente não tem muita “cerimônia” para tratar desse assunto e que “não é um cara cerimonioso com dinheiro”.

Segundo o empresário, em uma ocasião, Temer pediu para que o empresário pagasse o aluguel do escritório dele na Praça Pan-Americana, região nobre de São Paulo. Joesley relatou que desconversou e que o presidente nunca mais o cobrou.

A revista, então, perguntou se o empréstimo do jatinho da JBS ao então vice-presidente também ocorreu dessa maneira.

Joesley respondeu que não se lembra direito, mas que o pedido era dentro desse contexto: “Eu preciso viajar, você tem um avião, me empresta aí”, disse o empresário. Ele disse ainda que Temer acha que o cargo que ocupa “já o habilita” a fazer tais pedidos. “Sempre pedindo dinheiro. Pediu para o Chalita em 2012, pediu para o grupo dele em 2014”, relata.

O empresário afirmou na entrevista que a pessoa a quem Eduardo Cunha se referia como seu superior hierárquico era Michel Temer. “Tudo que o Eduardo conseguia resolver sozinho, ele resolvia. Quando ficava difícil, levava para o Temer”, relatou.

A reportagem, então, perguntou: “O chefe é o presidente Temer?”.

Joesley respondeu diretamente: "O Temer é o chefe da Orcrim, organização criminosa da Câmara. Michel Temer, Eduardo Cunha, Geddel Vieira Lima, Henrique Eduardo Alves, Eliseu Padilha e Moreira Franco. É o grupo deles. Quem não está preso está hoje no Planalto. Essa turma é muita perigosa. Não pode brigar com eles".

Aécio Neves

“Época", então, perguntou quem era o número 2. Joesley responde que é o senador afastado Aécio Neves (PSDB-MG), que era a alternativa ao "número 1" porque, em 2014, teve 48% dos votos dos brasileiros.

Aécio foi afastado do mandato parlamentar por ordem do ministro Edson Fachin, do Supremo Tribunal Federal, após ser gravado por Joesley pedindo R$ 2 milhões.

Na entrevista, o empresário diz que precisava fazer uma ação que fosse indiscutível para o entendimento da população e do Ministério Público. Registrar como se dão as conversas com o número da República e com o número 2, que seria a alternativa ao 1.

“Se o Brasil não entendesse que o 2 era igual ao 1, o Brasil ia achar que a solução era substituir o 1 pelo 2. Mas o 2 é do mesmo sistema”, declarou.

Joesley contou à “Época” que tanto o PT quanto o PSDB usaram o mesmo sistema: “caixa dois, nota fria, compra de coligação”.

O empresário disse que calculou que ia precisar do apoio de Aécio se ele fosse eleito em 2014. Aécio, segundo o delator, pediu para dar R$ 50 milhões no primeiro e outros R$ 50 milhões no segundo turno.

Joesley diz que Aécio tentou trazer o PR para o lado do PSDB no segundo por R$ 35 milhões. Ele afirma ainda que já havia separado essa quantia para pagar o partido, mas que, pouco tempo depois, o PR apareceu “através do PT”, cobrando R$ 40 milhões.

Segundo Joesley, Aécio disse que tentou conquistar o apoio do PR por R$ 35 milhões. Mas o PT cobriu os R$ 40 milhões. “E nós pagamos, pode isso?”, questionou.

Decisão de delatar

Empresário Joesley Batista - Foto: Divulgação.

Na entrevista, Joesley disse que, até o fim do ano passado, continuava conversando bastante com políticos tentando entender qual seria a solução para os crimes investigados na Lava Jato.

Até dezembro, segundo ele, acreditou-se que a solução para os problemas dos políticos seria aprovar a anistia ao caixa 2 e a lei de abuso de autoridade.

De acordo com o empresário, com a lei do abuso, os políticos acreditavam que se iriam segurar a Lava Jato e com a anistia ao caixa 2, acreditava-se que se legalizava as coisas erradas do passado.

A revista perguntou quem comandava esse movimento. Joesley respondeu que era Michel Temer e que cabia a Geddel articular a anistia ao caixa 2 e ao líder do PMDB no Senado, Renan Calheiros (AL), o projeto de abuso de autoridade, mas que os assuntos “morreram”.

Ele explicou que, com a recuperação econômica do país, os políticos passaram a achar que, com ela, conseguiriam "comprar o silêncio dos brasileiros".

“A recuperação econômica começou a vir, o brasileiro não iria mais para a rua e eles poderiam abafar a Lava Jato”, declarou Joesley.

Para o empresário, os políticos "não estavam entendendo" o que as investigações da Lava Jato trouxeram ao país e que o sistema político "faliu".

A revista questionou se foi aí que veio a decisão de tentar a delação premiada.

"Iríamos esperar o quê? Ser presos, a empresa quebrar, causar desemprego, dar prejuízo ao BNDES, à Caixa, ao mercado de capitais, aos credores?”, questionou Joesley.

Joesley Batista afirmou que sabia que estava aumentando a chance de trocar de lado e que estava próximo de partir para a delação com o Ministério Público. Ele acrescentou que o acordo era a única saída que estava enxergando e que a maneira mais efetiva de colaborar no combate à corrupção era mostrar para os procuradores que, apesar de três anos de esforços com a Lava Jato, nada mudou.

“Os políticos, no topo, não mudaram nada. Isso começa com o número 1, com o presidente da República”, declarou Joesley.

Ele acrescenta que, quando percebeu que as coisas não iam mudar, começou a registrar as conversas dele com políticos e gravou um diálogo com o presidente Michel Temer.

“Época” questionou se Joesley foi pressionado para direcionar o depoimento na Procuradoria-Geral da República.

O empresário afirmou que nunca recebeu sugestão do que deveria contar. Fez tudo espontaneamente.

E acrescentou: “Me apresentei para tentar fazer o acordo e contei aquilo que achei que deveria contar: que empresários obrigados a lidar com agentes públicos no Brasil têm de pagar para conseguir trabalhar”.

Gravação

Joesley diz que foi ao presidente porque queria saber se Temer estava entendendo o que estava acontecendo com o sistema político do país e se o presidente tinha alguma solução para os problemas dos políticos.

O empresário acrescentou que, para ele, continuar pagando pelo silêncio de Cunha e de Funaro estava errado e que não ia resolver o problema.

“Época” perguntou se Joesley queria ter certeza de que Temer continuava concordando em pagar o silêncio dos dois. O empresário confirmou e acrescentou que queria ter certeza de que essa agenda ainda era de Temer.

“De repente eu chegava lá e o Temer dizia: 'Não, Joesley, para, não precisa mais não’", afirmou. Mas Temer, segundo o empresário, disse que tinha que continuar isso.

A revista perguntou se o áudio gravado no Palácio do Jaburu entre ele e o presidente Temer foi alterado. Joesley foi enfático e respondeu: “De modo algum. Zero. Zero”.

“Podem fazer todas as perícias do mundo. Tentam desqualificar o áudio por desespero. Gravar uma pessoa não é algo trivial. É duro, doído, forte”, declarou.

Joesley diz que a única coisa que o conforta nessa história de ter gravado políticos é ter registrado o que eles falaram. Ele diz que não “botou palavra na boca de ninguém”.

“Se mesmo com toda a robustez das provas nós já estamos sendo perseguidos, imagine se fosse só o meu testemunho. Se isso fica só da minha boca?”, questiona.

Joesley foi perguntado por “Época” por que não gravou Lula. Joesley responde que “nunca teve uma conversa não republicana com Lula”. Diz que esteve com Lula duas vezes, em 2006 e em 2013.

Joesley conta que Guido Mantega era o contato no PT que sempre resolvia os pedidos dele e que não precisava de outro interlocutor. Ele lembrou que entregou provas aos procuradores e que o PT tinha o maior saldo de propina com a JBS.

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