24 de Junho de 2017 -
 
16/06/2017 - 16h50
Morre Helmut Kohl, o europeísta em estado puro que unificou a Alemanha
Político que comandou processo após queda do Muro de Berlim faleceu nesta manhã aos 87 anos em sua casa de Ludwigshafen
LLUÍS BASSETS
EL PAIS
O chanceler Helmut Kohl, em 1991 em Bonn, então a capital. GETTY.

Helmut Kohl, que morreu na manhã desta sexta-feira aos 87 anos em sua casa de Ludwigshafen, segundo confirmou seu partido, a CDU, foi o chanceler da unificação alemã. Sem a sua clareza de ideias, sem a sua sensatez e seu empenho, assim como sem a sua capacidade de tomar decisões e de assumir suas convicções dentro e fora da Alemanha, esse acontecimento fundamental para a história da Europa não se teria produzido no curto espaço de onze meses entre 9 de novembro de 1989, dia da queda do Muro de Berlim, e 3 de outubro de 1990, quando os seis landers da antiga República Democrática da Alemanha foram incorporados à República Federal e diretamente integrados à então chamada Comunidade Europeia, coroando, assim, a ampliação mais rápida jamais realizada em sua história.

Kohl está no panteão da história alemã ao lado de Bismarck, que realizou a primeira unificação, em 1871, em Versalhes, depois de derrotar a França, e ao lado de Adenauer, que ergueu a Alemanha democrática e a fez se reconciliar com seu vizinho e secular inimigo francês. O mérito de Kohl, a bem da verdade, é maior ainda, pois seu projeto de unificar os alemães era apenas uma outra face de seu projeto de unificar todos os europeus e de fazê-lo, além disso, sob um regime de plena liberdade, e não por meio da guerra, como Bismarck, nem sob um regime de ocupação e divisão, como Adenauer.

Dessa maneira, Kohl é também o chanceler da unidade e da liberdade europeias, o político do salto adiante europeu a partir da unificação alemã e que levou à criação da moeda única, à ampliação das fronteiras europeias até os confins da Rússia com a entrada de 28 membros, e a consolidação da maior região em que vigora o respeito aos direitos humanos e as liberdades, estabilidade, segurança e prosperidade da história: um balanço que ainda se mantém atual no momento de sua morte, apesar das nuvens escuras que pairam hoje em dia sobre a Europa.

Para esse homem simples, até mesmo vulgar, um gigante com quase dois metros de altura oriundo da política renana mais provincial de uma Alemanha dividida e ocupada, a liberdade e a unidade dos alemães foram desde a juventude a outra face da liberdade e da unidade de todos os europeus. Na queda do Muro, ele encontrou a oportunidade que buscava, aquele momento decisivo e extraordinário que coloca à prova quem quer que se depare com ele. Não fosse assim, ele talvez nem ganharia as eleições seguintes e poucos se recordariam dele no momento de sua morte.

Kohl aproveitou a sua oportunidade porque desde muito jovem, quando começou a militar nas fileiras da democracia cristã renana, fundia em sua mente o patriotismo alemão e europeu e a hostilidade concomitante aos dois sistemas totalitários: aquele que acabava de derreter na Alemanha e aquele que mantinha metade da Europa, inclusive o leste alemão, sob jugo.

Queda do muro de Berlim á 25 anos - Foto: 

Seu primeiro passo fundamental como chanceler, assim que assumiu a chefia do Governo em 1982 após uma moção de censura contra seu predecessor hoje esquecida na névoa da história, já sinalizava o caminho da unificação. Foi a sua campanha pela chamada dupla decisão da OTAN, proposta pelo chanceler socialdemocrata Helmut Schmidt e adotada em 1979, mas amplamente questionada por um movimento pacifista crescente até mesmo dentro do SPD.

Tratava-se de propor ao Pacto de Varsóvia uma redução drástica dos mísseis de médio alcance espalhados pelos dois blocos na Europa, e especialmente na Alemanha comunista, e, no caso de não se chegar a um acordo, a instalação imediata dos mísseis norte-americanos na Alemanha. Kohl recebeu então o apoio de François Mitterrand, presidente da França, com a célebre frase “Os mísseis estão no Leste, mas os pacifistas estão no Oeste”, que acabou por alça-lo em sua vitória eleitoral espetacular, com quase 50% dos votos para seu partido, algo que só Adenauer conseguia obter nos anos de reconstrução. O rearmamento da OTAN que os pacifistas denunciavam prenunciou, por um lado, a incapacidade do sistema soviético e sobretudo de sua economia de sustentar o desafio armamentista ocidental; e, por outro lado, a boa relação da Alemanha com a França, único país do núcleo europeu que estabelecera em algum momento uma terceira via entre Washington e Moscou.

Kohl foi um político pragmático, simples, impregnado pela história europeia, mas nada pretensioso. Sua reflexão sobre o passado trágico alemão, incompreendida por muitos, é reveladora de suas reticências em relação aos moralismos e às ideias grandiloquentes, sem vitimizações nem heroicidades impostadas. “Beneficiei-me da graça de ter nascido tarde”, disse diante do Knesset, na primeira visita de um chanceler alemão a Israel. O chanceler que soube enxergar o futuro da Alemanha e da Europa não era partidário das “visões”, muito menos dos políticos visionários, the vision-thing, tal como seu amigo George W. H. Bush, que tanto o ajudou no processo de unificação.

Kohl foi um autêntico amigo da Espanha. Ajudou na entrada nas então chamadas Comunidades Europeias, há exatamente 30 anos, e foi o autêntico padrinho das políticas orçamentárias que proporcionaram à Espanha 300 bilhões de euros (1,10 trilhão de reais) nessas três décadas em fundos estruturais, sociais, agrários e de coesão. Foi correspondido por Madri, como ele mesmo reconheceu em suas memórias, onde cita o apoio singular de Felipe González à unificação, em contraste com a hostilidade de Margaret Thatcher e as reticências, depois superadas, de François Mitterrand.

A Europa que Kohl contribuiu a construir com a nomeação de Jacques Delors à frente da Comissão, o lançamento da Ata Única para criar o mercado interno europeu com suas quatro liberdades (de circulação de pessoas, capitais, mercadorias e serviços) em 1992, o Tratado de Maastricht, a ampliação da UE de 12 a 15 e os passos iniciais rumo à moeda única, é ainda a Europa da ortodoxia europeísta traçada pelos pais fundadores, em que os governos espanhóis se sentiam confortáveis e capazes de manter um protagonismo de primeiro nível. Nenhum dos chanceleres posteriores, Schroeder e Merkel, se entenderam melhor com Madri e sintonizaram de maneira mais sutil com os interesses espanhóis.

Kohl desconfiava de Merkel e, em geral, das gerações que não viveram a experiência de uma Europa dividida e em guerra. “Está destroçando minha Europa”, chegou a dizer nos últimos anos, quando as relações com a França não funcionaram e a Alemanha foi ocupando um lugar excessivo em todas as decisões, prefigurando essa Europa alemã que tanto temia o velho chanceler e à qual ele contrapunha a Alemanha plenamente europeia.

Kohl passou seu purgatório em vida. Precisou sair da chancelaria derrotado por Gerhard Schroeder, depois de 16 anos no poder, e depois se viu obrigado a abandonar a política no ano seguinte, pelo financiamento ilegal de seu partido, cuja denúncia a própria Angela Merkel se encarregou de fomentar. O suicídio de sua esposa, Hannellore, em 2001, e as disputas familiares com seus filhos, após se casar com sua secretária, terminaram por acabar com sua imagem. Só faltava a publicação simultânea de uma reedição de suas memórias e de outras memórias não autorizadas e muito polêmicas, nas quais se reúnem mais de 600 horas de gravações realizadas por um confidente e amigo com quem Kohl havia brigado.

Sua morte sem dúvida limpará as histórias sobre seu nome e frisará a dimensão do gigante alemão e europeu que acaba de desaparecer, e até mesmo sua proximidade e sua humanidade. Kohl foi um político normal, sem aura e carisma, a quem tanto seus adversários como seus amigos consideraram como um chanceler de transição e terminou como um dos mais longevos, 16 anos na chancelaria, e dos que deixam maior e mais persistente marca nas histórias alemã e europeia.

Apesar de sua austeridade, sua tenacidade e sua laboriosidade, perfeitamente alemãs, Kohl foi um homem discretamente religioso e também irônico, tal como demonstra a que é talvez uma frase antológica sua, digna de um epitáfio: “Existe vida antes da morte e todo cristão, protestante ou católico, tem o direito a gozá-la”.

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