24 de Junho de 2017 -
 
07/06/2017 - 17h30
Nosso limite é segunda-feira, diz presidente do PSDB sobre decisão de sair do governo
Para Tasso Jereissatti, viagem de Temer em avião da JBS pode mudar a cabeça dos senadores
POR MARIA LIMA / CRISTIANE JUNGBLUT
O Globo

BRASÍLIA — O mais novo escândalo envolvendo o presidente Michel Temer admitindo uso de um jatinho de Joesley Batista para uma viagem particular com a primeira dama Marcela Temer, pode ser o ingrediente que faltava para o rompimento do PSDB com o governo. A decisão do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), que seria o gatilho para um eventual desembarque, acabou provocando o adiamento da reunião da Executiva desta quinta-feira para a próxima segunda-feira . Mas o episódio do avião pode acabar com a resistência de senadores e ministros a pressão de deputados para o rompimento já.

O Senador Tasso Jereissati, presidente do PSDB - ANDRE COELHO/Agência O Globo

Diante da indefinição do PSDB e do agravamento da situação do governo, cresce entre os deputados um movimento para que alguns saiam da legenda.

— A cada dia é um fato novo, não vai parar de ter fato novo nunca. Isso vai mudando a cabeça dos senadores. Segunda-feira é o limite do PSDB — disse o presidente interino, Tasso Jereissatti (CE), depois de uma manhã e tarde tomada por reuniões com deputados e senadores em seu gabinete.

A reunião da Executiva , segunda, será ampliada, com a participação de todos os governadores, deputados, senadores, ministros e presidentes de diretórios estaduais.

— Daqui para lá pode ter coisa nova. Estou preocupado com esse novo roteiro do TSE. Se absolver Temer e Dilma a casa cai — disse Tasso.

Ele explicou que há um caldeirão no partido, que tem de tudo, e que a preocupação é que o PSDB saia coeso dessa situação , por isso era preciso aguardar a decisão do TSE.

— Não precisamos de cargos ou ministérios para continuar apoiando as reformas — disse Tasso.

 

Durante almoço no gabinete de Tasso, havia a premissa de que o TSE decidiria até quinta-feira, o que facilitaria a decisão da Executiva. O colegiado será ampliado , mas só os integrantes da Executiva votarão.

— Nós precisamos de uma narrativa para o rompimento. O TSE nos daria essa narrativa, mas adiou para sábado — lamentou um dos presentes na reunião.

Entre os tucanos, há a percepção de que mesmo que escape do julgamento do TSE, Temer não terá como governar.

— A percepção é que o TSE vá absolver os dois, Dilma e Temer. Mas aí como será o cotidiano do governo? Não governa, hoje Temer está preocupado em dar explicações sobre o avião, amanhã será outra coisa. Está acuado, é uma situação terrível — disse o presidente do Instituto Teotônio Vilela, José Aníbal.

Para os tucanos, Temer teria também enormes dificuldades de conseguir os votos para barrar o acolhimento da denúncia que deverá ser encaminhada a Câmara pelo STF.

— Aí a chapa esquenta. Não será tão fácil assim — avaliou o secretário geral do PSDB, deputado Silvio Torres (SP).

Até segunda-feira Tasso irá conversar com governadores e dirigentes do PSDB para chegar a um consenso sobre a decisão de segunda-feira.

— O adiamento foi bom. Dará tempo para conversar com todo mundo e amadurecer uma posição de consenso — disse Silvio Torres.

O PSDB adiou mais uma vez a reunião que selará o destino de sua aliança com o governo do presidente Michel Temer. Diante da prorrogação do julgamento do Tribunal Superior Eleitoral, que marcou sessões inclusive para sexta e sábado, o presidente interino do partido, senador Tasso Jereissati (CE), reagendou o encontro da Executiva Nacional, marcado para amanhã, para a próxima segunda-feira, às 17h. Tasso minimizou as críticas de que o partido estaria “em cima do muro”.

— Essa marca a gente leva há 30 anos. Mas tudo bem, como lembrou ontem a Yeda (Crusius), isso acontece porque a gente tem a obrigação de olhar para os dois lados — justifica.

O senador Paulo Bauer (PSDB-SC) - Daniel Marenco / Agência O Globo / 11-5-2016

Segundo dirigentes tucanos, a pressão da bancada de deputados pelo desembarque segue muito intensa e deve forçar a Executiva a ter uma posição clara. Alguns parlamentares estariam inclusive ameaçando deixar a legenda se o partido não decidir prontamente. Mas o clima tenso não está apenas na Câmara. Alguns senadores passaram também a demonstrar crescente descontentamento com a situação:

— A nossa questão é politica. Temos um projeto e começamos a ver que o governo está sem rumo. As reformas estão andando mais por nossa forca que pela do governo. A bancada dos senadores ainda não tem uma posição, mas o foco da bancada da Câmara no desembarque é muito forte e não podemos tomar uma decisão e ignorar isso — pontua o líder do partido do Senado, Paulo Bauer (SC).

Tasso Jereissati irá passar o fim de semana conversando com seus correligionários, inclusive governadores e prefeitos de capital. Nesta quarta-feira, ele revezou-se entre encontros com aliados e encontrou brecha para receber o líder do movimento Vem Pra Rua, Rogério Chequer. O maior obstáculo hoje ao desembarque do governo é a posição explícita dos ministros Aloysio Nunes Ferreira (Relações Exteriores) e Antonio Imbassahy (Governo) em defesa do presidente Michel Temer.

— O sentimento é que os tucanos estão cansados de ficar em cima do muro. Então tem que ter uma decisão, seja ela qual for — explica o ex-governador de Alagoas, Teo Vilela.

LÍDERES DO PMDB OPTAM PELO SILÊNCIO

O presidente do Senado, Eunício Oliveira
(PMDB-CE) - Jorge William / Agência O Globo

Principais líderes do partido de Temer no Congresso, nem o líder do PMDB no Senado, Renan Calheiros (AL), nem o presidente do Senado, Eunício Oliveira (CE), quiseram se manifestar sobre o episódio.

Esse assunto não me cabe responder né? Eu não sou porta-voz do presidente da República. Sou presidente do Congresso Nacional — respondeu Eunício.

— Não quero falar sobre isso — limitou-se a dizer Renan.

A oposição tomou o plenário da Câmara — que ficou esvaziado, sem a presença da base aliada de Temer —, com discursos alertando para as “mentiras de Temer” sobre o uso do avião de Joesley e pedindo Diretas Já. Nesta quarta, eles fundaram formalmente a Frente das Diretas Já.

Vários parlamentares do PT, PSOL e Rede afirmaram que Temer está se complicando cada vez mais e que o fato do avião e das flores mostrou que o relacionamento entre o presidente e o empresário não era apenas protocolar. Para eles, há uma relação de promiscuidade. Os aliados ficaram em silêncio no plenário da Câmara, que ficou esvaziado e tentando votar matérias não polêmicas. Alguns aliados defenderem Temer, mas outros, nos bastidores. classificaram a comunicação do Palácio do Planalto sobre o fato de “desastrosa”.

O deputado Alessandro Molon (Rede-RJ) disse que o diálogo sobre as flores desconstruiu o discurso de Temer.

— Esse episódio é mais uma mentira do presidente, mais uma mentira em que ele é descoberto. E mostra que o relacionamento entre Temer e Batista era muito mais próximo do que ele alegava inicialmente. Espero que o TSE casse o mandato de Temer em vez de prolongar a crise — disse Molon.

Na mesma linha, o deputado Paulo Pimenta (PT-RS), disse que Temer está sendo desmascarado.

— São tantas mentiras que ele não consegue mais uma racionalidade nas declarações — disse Pimenta.

— Nossa obstrução é entre elas por essa manchete de jornal. É grave. Vamos ser francos: um presidente negar essas relações, feita pelo próprio Planalto, inclusive chegou a falar que viajou em avião da FAB, isso tudo revela a promiscuidade da relação.

Parlamentares da base aliada minimizaram o fato de o presidente Michel Temer ter usado jatinho de um empresário, mas nos bastidores consideraram "um desastre" as explicações do Palácio do Planalto a respeito. A avaliação, até entre os mais fiéis, é que Temer vem errando sempre que dá respostas às denúncias envolvendo o empresário Joesley Batista. Muitos avisaram ao próprio Temer e a assessores que era preciso parar de errar nessa comunicação. Em termos do fato em si, alegam que muitos parlamentares pegam carona em jatinhos e que o ex-presidente Lula usava e usa o avião do ex-ministro Walfrido dos Mares Guia, que já foi investigado em outras ocasiões.

O deputado Beto Mansur (PRB-SP), que tem ido frequentemente ao Palácio do Planalto, defendeu Temer.

— Não tem problema. Às vezes você pega uma carona num avião e isso não quer dizer que você vá favorecer alguém. O ministro Teori Zavascki estava num avião (que pertencia ao empresário Carlos Alberto, que também morreu), sofreu um acidente, infelizmente morreu, e ninguém duvidava da idoneidade dele — disse Beto Mansur.

Outro aliado, o deputado Darcísio Perondi (PMDB-RS), minimizou o fato.

— Isso foi em 2011, há quase oito anos. O Lula sempre viaja no avião do Mares Guia — disse Perondi.

O líder do governo na Câmara, deputado Aguinaldo Ribeiro (PP-PB ), preferiu falar na necessidade de se restabelecer o diálogo entre as instituições e de se votar as reformas.

Outros parlamentares da base acreditam que Temer está errando ao se precipitar e sendo vítima do cansaço. O próprio amigo e advogado de Temer, Antonio Cláudio Mariz de Oliveira, tem reclamado que Temer se precipitou ao dar declarações sobre o encontro com Joesley, acabando gerando elementos contra ele mesmo.

Lideranças do PT e da Rede Sustentabilidade no Senado, anunciaram nesta quarta que irão representar contra o Michel Temer na Procuradoria Geral da República (PGR), por mentir e por usar uma aeronave da empresa J&F , do Grupo JBS de Joesley Batista, para uma viagem privada com a esposa , Marcela, para Comandatuba, em 2011. O líder da Rede, Randolfe Rodrigues (AP), disse que já há muitos pedidos de impeachment contra Temer em tramitação, mas esse novo escândalo pode dar mais força a uma “inevitável” denúncia do Supremo Tribunal Federal (STF), contra o presidente.

— O caso do uso do avião de Joesley é mais uma razão para a cassação de Temer. Vou denunciá-lo mais uma vez a PGR. Mentir é motivo para impeachment de presidente da República e deve constar na inevitável denúncia contra ele que será encaminhada a Câmara pelo STF — disse Randolfe.

Na mesma linha o ex-vice líder do PT, senador Humberto Costa (PT-PE), disse que já está estudando, com a assessoria jurídica, qual o melhor instrumento para representar contra Temer, na PGR, por causa do uso da aeronave , antes negado e depois confirmado.

— É mais um fato absurdo. Um presidente da República alegar que entrou em um avião privado e não sabia de quem era. É muita falta de consciência sobre o que é público e privado, muita falta de consciência sobre a dimensão do cargo que ocupa — criticou Humberto Costa.

Líder do DEM, o senador Ronaldo Caiado (GO), que defende o afastamento de Temer, afirmou que a situação do presidente se complicou com o novo fato da aeronave de Joesley Batista.

— Isso depõe contra ele e a favor das denúncias feitas. São situações que cada vez agravam mais essa intimidade dele com esse delinquente — disse Caiado.

(Colaborou Fernanda Krakovics)

 

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